A ansiedade social é um tipo de ansiedade marcada pelo medo intenso de ser avaliado, observado ou julgado pelos outros. Ela pode se manifestar em situações simples do cotidiano — falar em público, encontrar pessoas novas, participar de reuniões, gravar um vídeo, entrar em uma sala cheia — e, em casos mais intensos, gerar paralisação, fuga ou profundo desconforto interno.
Na era das redes sociais, esse fenômeno ganhou ainda mais força. Se antes o medo do olhar alheio estava restrito ao encontro presencial, hoje ele se estende ao universo digital, onde somos vistos, expostos e avaliados o tempo todo. Likes, comentários, comparações e a constante sensação de estar “sendo observado” criam um ambiente ideal para o aumento da ansiedade social.
Neste artigo, vamos explorar por que esse quadro se intensificou nos últimos anos, como o cenário digital influencia nossas emoções e de que forma a psicanálise ajuda a compreender os efeitos dessa crescente pressão por performance, aprovação e pertencimento.
Neste post…
1. O olhar do outro: como as redes amplificam o julgamento
Na psicanálise, o olhar do outro é estruturante. É por meio dele que aprendemos quem somos e como pertencemos ao mundo. No ambiente digital, porém, esse olhar se multiplica de forma desmedida. Uma foto, um comentário ou até mesmo a ausência de interação podem despertar angústia, reforçando a ansiedade social.
- As redes criam métricas de validação: curtidas, seguidores, compartilhamentos.
- O sujeito passa a se comparar com vidas idealizadas, editadas e filtradas.
- Qualquer sinal de rejeição — mesmo ínfimo — pode soar como uma ameaça narcísica.
Por isso, a ansiedade social se torna mais presente: há sempre alguém observando, mesmo quando ninguém de fato está.
2. A cultura da performance: ser o tempo todo “a sua melhor versão”
As redes exigem uma apresentação constante, como se estivéssemos em um palco que nunca fecha a cortina. Essa expectativa cria uma pressão interna: parecer feliz, produtivo, saudável, sociável e interessante o tempo todo.
Do ponto de vista psicanalítico, essa necessidade de desempenho toca em ideais impossíveis. O eu tenta corresponder a exigências externas, mas se distancia de seus próprios desejos. O conflito entre o que se é e o que se mostra amplia os conflitos internos e alimenta a ansiedade social. Afinal:
- Como sustentar uma imagem que não corresponde à realidade?
- Como lidar com a frustração quando o retorno não é o esperado?
- Como conviver com a sensação de insuficiência?
Essa discrepância constante fragiliza a autoestima e aumenta o mal-estar.
3. Comparação e idealização: o sofrimento silencioso
A comparação social é tão antiga quanto a humanidade, mas nas redes ela acontece em escala industrial. O feed se torna um catálogo de vidas perfeitas — viagens, sucesso, relacionamentos ideais, corpos esculturais, conquistas profissionais. A psicanálise aponta que esse excesso de idealização alimenta a sensação de que nunca estamos à altura.
Assim, a ansiedade social cresce porque:
- Sentimo-nos o tempo todo abaixo da média.
- Acreditamos que estamos ficando para trás.
- Desenvolvemos uma autoimagem fragilizada.
- Passamos a evitar interações por medo de sermos menos do que o esperado.
O sujeito não sofre apenas pelo que vê, mas pelo que imagina que o outro vê nele.
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4. Relações líquidas e medo de não pertencer
A era das redes também trouxe relações mais rápidas, superficiais e descartáveis. Se antes os vínculos eram construídos com tempo e presença, hoje podem ser rompidos com um clique. Esse cenário desperta inseguranças profundas — especialmente em quem já convive com a ansiedade social.
O medo de não pertencer, de ser excluído, ignorado ou esquecido, mobiliza angústias primitivas. Em muitos casos, o sujeito passa a:
- Evitar encontros presenciais por insegurança;
- Isolar-se, temendo não corresponder às expectativas;
- Criar vínculos frágeis, com medo de se expor emocionalmente.
A ansiedade social se alimenta do medo da perda, do abandono e da rejeição — e as redes intensificam esses temores.
5. Como a psicanálise pode ajudar?
A psicanálise busca compreender o que está por trás do sofrimento e como o sujeito se estrutura em relação ao olhar do outro, à necessidade de aprovação e aos ideais internos.
No tratamento, é possível:
- Nomear angústias relacionadas à ansiedade social
- Reconhecer padrões de comparação e autocrítica exagerada
- Trabalhar o ideal de Eu e suas exigências impossíveis
- Fortalecer o contato com o próprio desejo, em vez de viver para atender expectativas externas
- Entender como a história familiar moldou a relação com o olhar do outro
Ao dar sentido ao mal-estar, o sujeito encontra mais liberdade para existir longe das amarras da performance e da aprovação constante.
Conclusão
A ansiedade social na era das redes não é apenas um problema moderno — é um reflexo da forma como nos relacionamos com o olhar do outro, com nossos ideais e com nossas fragilidades. As plataformas digitais não criaram o sofrimento, mas amplificaram dinâmicas internas já existentes. Entender esse processo, especialmente pela ótica da psicanálise, abre espaço para um olhar mais compassivo sobre si mesmo.
Atravessar esse cenário exige coragem, autoconhecimento e, muitas vezes, acompanhamento profissional. Quando compreendemos o que as redes despertam em nós, podemos usá-las de maneira mais saudável, menos ansiosa e mais conectada com o que realmente importa.
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