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Transtornos alimentares: quando a relação com a comida revela um sofrimento silencioso

Falar sobre transtornos alimentares é falar sobre dores que nem sempre encontram palavras. Muitas vezes, o que aparece como uma relação difícil com a comida esconde conflitos emocionais profundos, sentimentos de inadequação, culpa, vazio ou necessidade de controle. Comer demais, comer de menos ou viver em ciclos de restrição e compulsão raramente diz respeito apenas ao alimento em si. A comida, nesses casos, passa a ocupar um lugar simbólico na tentativa de lidar com aquilo que não foi possível elaborar psiquicamente.

Do ponto de vista da psicanálise, o sintoma não surge por acaso. Ele é uma resposta possível diante de algo que excede o sujeito. Por isso, compreender os transtornos alimentares exige ir além de dietas, regras nutricionais ou da aparência corporal, abrindo espaço para uma escuta que considere a história, os vínculos e os afetos envolvidos.

A comida como linguagem do sofrimento psíquico

Na clínica, é comum observar que os transtornos alimentares funcionam como uma linguagem. Quando faltam palavras para nomear angústias, frustrações ou conflitos antigos, o corpo assume esse papel. A comida passa a ser usada para preencher vazios emocionais, anestesiar sentimentos difíceis ou exercer uma sensação ilusória de controle.

Essa relação não se constrói de forma repentina. Geralmente, ela se forma ao longo da vida, atravessada por experiências precoces, relações familiares, exigências externas e ideais de perfeição. Nos transtornos alimentares, o ato de comer ou recusar o alimento pode carregar significados ligados à dependência, à autonomia, ao cuidado ou à falta dele.

Controle, culpa e exigência interna

Um aspecto frequentemente presente nos transtornos alimentares é a tentativa de controle. Controlar o corpo, o peso ou a ingestão de alimentos pode ser uma maneira de lidar com sentimentos de desamparo ou insegurança. No entanto, esse controle costuma vir acompanhado de uma voz interna crítica e exigente, que nunca se satisfaz. 

A culpa também ocupa um lugar central. Comer pode gerar culpa, assim como não seguir regras autoimpostas. Esse ciclo reforça o sofrimento e mantém o sintoma ativo. Nos transtornos alimentares, o sujeito frequentemente se sente aprisionado entre a necessidade de controle e o desejo, o que gera angústia e isolamento emocional.

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O silêncio que acompanha o sintoma

Apesar de serem cada vez mais discutidos socialmente, os transtornos alimentares ainda carregam muito silêncio. Muitas pessoas demoram a buscar ajuda por vergonha, medo de julgamento ou por acreditarem que “não é grave o suficiente”. Esse silêncio aprofunda o sofrimento e dificulta a possibilidade de elaboração.

Na perspectiva psicanalítica, o sintoma persiste enquanto não encontra um espaço de escuta. Os transtornos alimentares não devem ser vistos apenas como comportamentos a serem corrigidos, mas como sinais de que algo no psiquismo pede atenção, cuidado e reconhecimento.

A escuta psicanalítica e o caminho do tratamento

O tratamento dos transtornos alimentares, pela psicanálise, não se baseia em impor regras ou controlar comportamentos. O foco está em compreender o sentido singular do sintoma para cada sujeito. O que essa relação com a comida representa? O que ela tenta encobrir ou sustentar?

Ao longo do processo analítico, os transtornos alimentares podem ser ressignificados à medida que o sujeito encontra outras formas de lidar com seus afetos, conflitos e desejos. A fala, nesse contexto, ocupa um lugar central, permitindo que aquilo que antes era expresso pelo corpo possa, pouco a pouco, ganhar palavras.

Transtornos alimentares – Conclusão

Os transtornos alimentares revelam muito mais do que uma dificuldade com a comida: eles apontam para um sofrimento psíquico que precisa ser escutado. Quando o sintoma é acolhido sem julgamentos, abre-se a possibilidade de transformação e de construção de uma relação mais saudável consigo mesmo.

Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de cuidado. Se a relação com a comida tem sido fonte de dor, angústia ou culpa, talvez seja o momento de olhar para além do prato e permitir-se ser escutado. Na psicanálise, os transtornos alimentares podem ser compreendidos como um caminho possível para acessar aquilo que, por muito tempo, permaneceu em silêncio.

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