No momento, você está visualizando Autossabotagem: por que algumas pessoas destroem o que mais desejam?

Autossabotagem: por que algumas pessoas destroem o que mais desejam?

Autossabotagem é um comportamento mais comum do que se imagina. Muitas pessoas relatam que, justamente quando estão próximas de conquistar algo importante — um relacionamento saudável, uma promoção no trabalho ou um projeto pessoal — acabam tomando decisões que prejudicam seus próprios objetivos. Como se, inconscientemente, colocassem obstáculos no próprio caminho.

Na psicanálise, este comportamento não é visto como falta de força de vontade ou desorganização simples. Ele pode estar ligada a conflitos internos profundos, medos inconscientes e padrões emocionais construídos ao longo da história de vida. Entender esse mecanismo é um passo importante para interromper ciclos repetitivos e dolorosos.

O que é autossabotagem?

Ela acontece quando a pessoa adota comportamentos que a afastam do que conscientemente deseja. Isso pode aparecer de diversas formas: procrastinação constante, escolha de parceiros indisponíveis, abandono de projetos promissores ou atitudes impulsivas que colocam tudo a perder.

Embora pareça contraditório, esses comportamentos não surgem por acaso. Muitas vezes, eles funcionam como uma forma inconsciente de proteção. A mente pode interpretar o sucesso, a intimidade ou a mudança como ameaças. Assim, sabotar-se pode ser uma tentativa de evitar frustrações maiores, rejeição ou sentimentos antigos que ainda não foram elaborados.

Por que alguém destrói o que mais deseja?

Essa é uma pergunta frequente no consultório. Quando a pessoa percebe que repete padrões de autossabotagem, costuma sentir culpa e incompreensão: “Se eu quero tanto, por que faço isso?”

A psicanálise considera que nem todos os desejos são totalmente conscientes. Pode haver conflitos entre aquilo que a pessoa diz querer e aquilo que, em nível inconsciente, acredita merecer. Se alguém cresceu ouvindo que não era capaz, por exemplo, pode carregar uma marca interna de desvalor. Ao se aproximar de uma conquista, esse registro inconsciente entra em ação e ativa comportamentos de autossabotagem.

Além disso, o medo do sucesso também pode estar envolvido. Conquistar algo novo implica mudança — e toda mudança exige enfrentar o desconhecido. Para algumas pessoas, permanecer em padrões antigos, mesmo dolorosos, parece mais seguro do que arriscar algo diferente.

Autossabotagem nos relacionamentos

Nos vínculos afetivos, esse comportamento costuma aparecer com força. Escolher repetidamente parceiros indisponíveis, provocar conflitos quando a relação começa a se aprofundar ou terminar abruptamente quando tudo parece estável são exemplos comuns.

Muitas vezes, esses movimentos estão ligados a experiências infantis. Se a pessoa viveu abandono, rejeição ou instabilidade emocional, pode desenvolver uma expectativa inconsciente de que o amor sempre traz sofrimento. Assim, ao perceber que está vivendo algo saudável, surge a ansiedade. 

A autossabotagem, nesse contexto, funciona como uma maneira de confirmar um roteiro já conhecido. Trata-se de uma repetição. A mente busca, de forma inconsciente, reviver situações antigas na tentativa de dar um novo desfecho a elas — mas, sem elaboração, o resultado tende a ser semelhante.

Autossabotagem e vida profissional

No campo profissional, a autossabotagem pode se manifestar como procrastinação crônica, atrasos frequentes, dificuldade em finalizar projetos ou até conflitos recorrentes com superiores.

Quando uma oportunidade importante surge, sentimentos como inadequação e medo de exposição podem emergir. O pensamento inconsciente pode ser: “Se eu conseguir, vão descobrir que não sou capaz.” Para evitar essa possível “descoberta”, a pessoa se antecipa e compromete o próprio desempenho.

Nesse sentido, a autossabotagem preserva uma identidade antiga, ainda que limitada. É como se o sujeito permanecesse fiel a uma imagem construída no passado, mesmo que ela já não corresponda à sua realidade atual.

É possível interromper esse ciclo?

Reconhecer a autossabotagem é o primeiro passo. No entanto, apenas identificar o comportamento não costuma ser suficiente para transformá-lo. Como suas raízes podem estar no inconsciente, é necessário um processo de investigação mais profundo.

A psicanálise oferece um espaço de escuta onde o paciente pode compreender a origem de seus padrões repetitivos. Ao trazer à consciência conflitos, medos e crenças internalizadas, a pessoa começa a construir novas formas de se posicionar diante da própria vida.

A mudança não acontece de forma mágica ou imediata. Ela é resultado de um trabalho contínuo de elaboração. À medida que o sujeito entende o sentido de sua autossabotagem, passa a ter mais liberdade para escolher caminhos diferentes.

Leitura complementar – Quando a mente alerta para o perigo: roer unhas, procrastinar e outras formas de autossabotagem

Autossabotagem – Conclusão

A autossabotagem não é sinal de fraqueza ou incapacidade. Trata-se de um fenômeno complexo, frequentemente ligado a experiências emocionais passadas e a conflitos inconscientes. Quando alguém destrói o que mais deseja, geralmente está tentando, ainda que sem perceber, se proteger de algo que considera ameaçador.

Compreender esses mecanismos permite interromper ciclos repetitivos e construir relações, projetos e escolhas mais alinhados com os próprios desejos. Buscar ajuda profissional pode ser um passo importante para transformar padrões de autossabotagem em oportunidades de autoconhecimento e crescimento emocional.

Leia também – Transtornos alimentares: quando a relação com a comida revela um sofrimento silencioso

Deixe um comentário